João Félix: o menino que tem o futebol espanhol aos seus pés

De há dois meses a esta parte, o léxico futebolístico espanhol ganhou uma expressão nova que se repete nas capas de jornais: “El Menino de Oro”, assim mesmo, escrito nesta mistura entre o português e o castelhano. O “menino” tem 19 anos, veste de vermelho e branco, com riscas verticais, e dá pelo nome de João Félix. Desde que aterrou em Madrid tem monopolizado as manchetes, que se desfazem em elogios. “Bomba”, “dinamite”, “génio”… São algumas das palavras utilizadas para descrever o que o “menino” faz dentro do campo e que tem deixado jornalistas, comentadores e adeptos com água na boca.

“Estou aqui para dar tudo pela equipa e fazer História no clube”, disse Félix quando chegou a Madrid. Os adeptos, ainda a lamber as feridas depois do abandono de Antoine Griezmann – que este verão trocou Madrid por Barcelona –, torceram o nariz e ficaram na expectativa. Afinal, eram 126 milhões de euros por um miúdo de 19 anos sem provas dadas e que vinha para substituir o melhor jogador da equipa nos últimos cinco anos.

Mas, depois, veio a pré-época e o jogo contra o Real Madrid: vitória por 7-3 e um golo do português. A seguir, a Juventus: outra vitória por 2-1, outros dois golos. E o “menino” meteu os adeptos no bolso. “Aqui já ninguém se lembra do Griezmann”, diz José Luis Marín, presidente da Peña Atlética de Getafe, um dos mais antigos grupos de apoio à equipa. “Griezmann fechou uma porta e João Félix abriu outra; tem tudo para ser o novo príncipe da afición do Atlético de Madrid”, garante.

Mais do que os golos, o português tem assinado exibições de encher o olho, recheadas de pormenores técnicos, que provam a sua visão de jogo, a capacidade de desmarcação e a facilidade para oferecer esse último passe decisivo. “Tem muita classe! E tem aquilo que só os grandes futebolistas possuem: quando agarra na bola, sentes que vai acontecer alguma coisa importante de certeza absoluta”, diz Patrícia Cazón, a jornalista do jornal desportivo AS, que acompanha o Atlético regularmente.

Às reservas iniciais seguiu-se o empolgamento e, pouco mais de um mês depois de ter chegado a Madrid, João Félix já tem a confiança dos sócios. “A esperança e a expectativa que gerou nos adeptos só recorda a que provocou Kun Agüero. Sempre que perguntas a um adepto do Atlético quem foi o jogador com mais talento que passou pelo clube, surgem dois nomes: Futre para os mais velhos; e Agüero para os mais novos. João Félix já está ao mesmo nível”, conta a jornalista.

As comparações sucedem-se: Paulo Futre, Kun Agüero e até mesmo Fernando Torres, o menino bonito da formação do Atlético. “Antes de o ver jogar pensava que era como El Niño Torres, um jogador com muita técnica e tal… Mas agora que o vi, tem pinta de ser um jogador diferente, especial”, diz Raúl Martínez, da Peña Atlética de Aranjuez.

Javier Matallanas, diretor-adjunto do AS e colchonero de gema, corrobora o entusiasmo dos adeptos. “Sigo o Atlético de Madrid como jornalista desde 1992, joguei nas camadas jovens, sou adepto desde que nasci e lembro-me de poucos jogadores que tenham provocado esta onda de otimismo”, diz. “Sim, são jogos amigáveis e não contam para nada… Mas é o Real Madrid e a Juventus! Olhas para ele e vês essa segurança, essa maneira de jogar sem se esconder. Desde que eu me lembro, é a contratação que mais esperança trouxe ao Atlético de Madrid.”

Rápida integração
Além do talento individual, há outra coisa que salta à vista: a integração dentro da equipa e do modelo de jogo de Simeone. Entende-se às mil maravilhas com Diego Costa, procura os espaços vazios, troca de posição constantemente e desmarca-se para onde os adversários menos esperam, mas onde os companheiros sabem que vai estar. “A ligação com o Diego Costa é maravilhosa. Entendem-se, procuram-see encontram-se dentro do campo, e isso é o melhor que podia acontecer ao Atlético”, analisa Patricia Cazón.

De tal forma, que o treinador, Diego Simeone, pode ser obrigado a mudar de planos. É conhecida a dificuldade do argentino em dar a titularidade aos recém-chegados. Muitos falam de proteção aos mais jovens, outros de uma espécie de “serviço militar obrigatório” que Simeone impõe aos caloiros. O certo é que poucos acreditam que possa fazer o mesmo com Félix.

“A ideia de Simeone seria dar-lhe minutos pouco a pouco, moldá-lo, mas o que eu acho é que o João não o vai deixar. Como é que o vai sentar no banco depois desta pré-temporada? É impensável!”, garante a jornalista. “Não vai poder fazer o mesmo que fez com outros, porque o João não é um jogador normal”, completa Miguel Talavera, jornalista da rádio Cadena Ser.

Nos treinos, Simeone é a sombra de Félix. O jogador ouve com atenção e executa o que o treinador lhe pede. Aos meios de comunicação, o técnico já reconheceu que o que mais gosta em Félix é “a vontade de aprender”. “Assim, o processo de adaptação será mais curto. O talento é inato, mas a vontade de aprender é o caminho mais curto para que um jogador possa render”, diz.

Também os colegas de equipa já perceberam que têm ali um diamante em bruto que pode trazer muitas alegrias ao clube. Desfiam elogios em declarações à Imprensa e pedem paciência para quem, com 19 anos, é o foco de toda a atenção mediática. “Não há que ter pressa para lhe dar responsabilidades. Quando se contratou o Agüero, com 17 anos, também foi caro para a época e depois foi o que se viu. Se fizer dois jogos maus não o podemos matar”, avisou o capitão Koke ao El País. “Dezanove anos, não é? Adaptou-se muito rápido e isso é fundamental. É um miúdo que quer crescer e vai fazê-lo, sem dúvida. Tem o futuro nas mãos”, declarou o central Giménez depois do jogo com a Juve.

Diz quem acompanha a equipa há anos que a chegada de Félix pode supor uma mudança até no sistema tático. “Há muito tempo que se pede a Simeone que aposte num futebol mais de ataque. E João Félix pode obrigá-lo a ser mais ofensivo e a melhorar o estilo de jogo do Atlético”, explica Matallanas. “Vai dar mais verticalidade ao jogo da equipa, que era algo que lhe faltava, mais velocidade e rebeldia”, conclui Talavera.

A pressão dos €126 milhões
Chegar a uma equipa nova nunca é fácil. Fazê-lo com 19 anos, no estrangeiro e com o peso de ser o mais caro de sempre do clube torna as coisas ainda mais complicadas. “Há vários casos de jogadores muito jovens que podiam chegar muito longe e acabaram por ficar aquém das expectativas, seguramente porque não geriram bem a pressão, a responsabilidade e os níveis de stresse”, explica David Peris, psicólogo desportivo e vice-presidente da Federação Espanhola de Psicologia no Desporto.

Na memória dos portugueses está o caso de João Vieira Pinto. Saiu com 17 anos para o Atlético de Madrid, mas nunca vingou. Acabou relegado para a equipa B dos colchoneros, sem ter feito um único jogo pela equipa principal e, depois de um ano para esquecer, regressou a Portugal, onde haveria de fazer toda a sua carreira como um dos melhores jogadores portugueses de sempre. “Há que facilitar a vida ao jogador. Fazer com que ele só tenha de jogar, afastando-o de tudo o que o possa distrair”, assinala o psicólogo.

Peris, que trabalhou em clubes como o Valência, salienta que, neste aspeto, ter um treinador como Simeone é crucial. “Define bem o que espera dos jogadores e ajuda-os a chegar ao seu melhor nível. Isto, num futebolista tão jovem, é fundamental: ter um ambiente que respeite a sua progressão, que tire o melhor dele. Simeone é o treinador ideal para isso”, defende. E para desenvolver o seu futebol também, aponta Talavera: “Caiu na equipa perfeita para continuar a crescer, com um treinador que o vai ajudar a melhorar determinados aspetos do jogo que não tinha tão interiorizados, como defender ou entender que está ao serviço da equipa. Deparou com o treinador perfeito para o ajudar a ser melhor.”

Em todo este complicado puzzle psicológico, há uma peça determinante: a personalidade do jogador. A capacidade de se centrar no jogo e de se abstrair de todo o ruído, mediático e não só, que uma transferência como esta gera.

“Se a pressão o vai afetar? Ao João? Nunca! Só tens de o ouvir falar. É incrível como fala com 19 anos. É uma das coisas que mais me impressionou, a forma de sacudir a pressão. Não, a este miúdo isso não o vai afetar”, garante Patricia Cazón. “A sensação que dá é de que tem muita personalidade. Outra coisa que pode acontecer é iniciar a temporada e as coisas não lhe saírem bem, e começar 
a aparecer o resultado disso todos os dias na Imprensa, mas, à primeira vista, parece lidar bem com a pressão”, completa o jornalista Miguel Talavera.

É das características que os colegas de equipa mais ressaltam: a “naturalidade” com que tem enfrentado o novo desafio. “É o que dizem os jogadores quando falo com eles”, conta Talavera. “A tranquilidade com que faz tudo, como se nada lhe custasse, e a humildade. Apesar da atenção mediática, não tem um ego desmedido. Todos dizem que parece um jogador muito mais maduro”, conclui.

Paixão entre os adeptos
No primeiro jogo do Atlético de Madrid na Liga, contra o Getafe e diante dos seus adeptos, João Félix não marcou mas deixou na retina uma jogada de génio. Aos 55 minutos, Félix agarrou na bola ainda antes do meio-campo, fez um túnel, passou por três adversários e só parou travado em falta, já dentro da grande área. Grande penalidade que Morata, chamado a converter, falhou.

Saiu tocado, pouco tempo depois, e os adeptos dedicaram-lhe uma sonora ovação. Nas bancadas, o seu nome era um dos que mais se repetiam nas camisolas. Um passeio pelo estádio, poucas horas antes do jogo, chegou para perceber que era um dos dorsais mais pedidos. “Tem arrasado, tomou a posição do Griezmann completamente. Durante a semana não vem muita gente aqui, mas hoje, dia de jogo, vendemos facilmente 500 camisolas dele e arriscaria até a dizer mais”, conta um funcionário da loja oficial do Atlético.

Raúl Suárez, de 15 anos, é um dos que acabam de comprar a camisola do português. Guarda a t-shirt que trazia vestida no saco e equipa-se a rigor com a camisola 7 antes de sair da loja: “Comprei-a porque é um grande jogador e acho que pode ser uma das estrelas do Atlético.”

É, sobretudo, entre mais novos que João Félix faz mais sucesso. À entrada do estádio, sentados aos ombros dos pais, ou colados às grades à espera de ver passar o autocarro da equipa, há muitas crianças com o 7 de Félix nas costas. “Todos os miúdos querem a camisola dele”, diz o mesmo funcionário. “Durante a semana, vêm muitas famílias fazer o tour do estádio que acaba aqui, na loja. E os miúdos querem sempre a dele. Por dia, podemos vender 50 camisolas do Félix, em tamanho de criança.”

Alejandro, com os seus sete anos muito envergonhados, é um deles. “Gosto do João Félix porque marca muitos golos”, diz, enquanto mostra a camisola que o avô lhe ofereceu. Ao lado, o avô Luis ainda se mostra cauteloso – “O custo de €126 milhões não tem justificação” –, mas não esconde a esperança: “Daquilo que vi até agora, para mim é melhor do que o Griezmann. É um jogador de equipa e muito bom tecnicamente.”

Potencial de marca
A euforia associada ao jogador mede-se também aqui: na esperança dos adeptos, na injeção de confiança e no que isso pode supor a nível de potencial de marca e de vendas. O Atlético não oferece dados oficiais, mas os meios de comunicação espanhóis falam de cerca de 7 mil camisolas vendidas em dois dias, depois da apresentação do craque. “Nas medições que temos na empresa, pelos canais alternativos de venda online, poderiam ter chegado às 20 mil numa semana. Custando 155 euros cada uma, falamos de mais de um milhão de euros”, atira Gerardo Molina, CEO da consultoria de marketing desportivo Euromericas e professor da pós-graduação em Marketing Desportivo do Real Madrid, na Universidade Europeia de Madrid.

Molina chama a atenção para todo o processo de contratação do jogador para desmistificar a etiqueta de “dispendioso”. “O que interessa não é o que custa mas sim o que é capaz de gerar. E, para já, é um jogador com uma projeção desportiva parecida à do Messi quando se estreou no Barça”, explica Molina.

Para o especialista, o Atlético de Madrid soube focar “o plano de marketing digital nas redes sociais e viralizar o jogador de tal forma que hoje é o mais mediático do mundo”. Acima de Messi e Ronaldo? “A nível de percentagem de crescimento no último mês, sim, é o jogador com mais visualizações de vídeos e conteúdos, o mais procurado nas redes e com maior subida de fãs”, garante Molina. “A nível de patrocínios, isto é importantíssimo para o jogador e para o clube.”

Javier Mancebo, consultor de marketing desportivo, analisa a operação com mais cautela e de um ponto de vista mais pragmático. “É óbvio que o preço está inflacionado e que o Atlético comprou potencial. Não pagou o jogador que Félix é agora mas sim o que pode chegar a ser”, diz. E liga o sucesso ou o fracasso da transferência a algo tangível para qualquer adepto de futebol: os resultados. “O Atlético tem de ganhar a Liga ou a Taça do Rei e chegar, pelo menos, às semifinais da Champions, com uma contribuição elevada do jogador, para que o investimento se justifique.”

No fundo, aquilo que os adeptos estão à espera: golos, exibições e títulos. E um símbolo que comande a equipa e resgate, por fim, para o Atlético de Madrid, esse título que o futebol lhe deve. “Se tudo correr como devia, podemos estar ante o Di Stéfano do Atlético de Madrid: um jogador que agarre num dos grandes do futebol mundial e o faça maior, e lhe dê essa Champions que perdeu em 1974 com o Bayern e em 2014 e 2016 com o Real”, remata Javier Matallanas. “Esse pode ser João Félix.”